21 – Algumas Tramas que o Apagão Revelou no Amapá

24 min de leitura

No norte do Brasil, o “estado tímido” do Amapá acabou ganhando os holofotes em novembro de 2020, com um apagão que durou 22 dias, deixando quase 90% da população no escuro. A situação revelou diálogos sobre infraestrutura, recursos hídricos, responsabilidade estatal e privatizações. Com relatos de moradores, este episódio traz dados e reflexões sobre o acontecimento e seus desdobramentos políticos. 

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24 min de leitura

Olá! Seja muito bem vindo. Este episódio faz parte do Tramas Democráticas, um programa de intercâmbio do Goethe-Institut que busca ampliar o diálogo sobre inovações cívicas e democracia digital na América do Sul.
Hoje é com muito prazer que estou aqui pra falar sobre o estado do Amapá e também refletir sobre o antes, durante e o depois do Apagão. Eu não tô aqui só pra falar apenas sobre fatos, mas também sobre subjetividades. Como artista e cronista nascido e criado por aqui eu amo as coisas que os jornais não mostram, pois desde pequeno eu já não via o nome do meu estado nos jornais de renome nacional. Ser artista, pra mim é falar sobre o sentir, sobre ser humano e nossas fraquezas, sobre revelar o que está no nosso corpo, ou no corpo de uma sociedade através do fenômeno artístico aprecio muito: a vida. Tudo isso você pode enxergar nesse episódio, pois além de um experimento artístico também é político. Para conhecer os demais episódios de podcast apoiados, você pode visitar o primeiro link que está na descrição deste episódio. Eu sou o Diego Malva e esse é o Vírgula Dobrada Podcast.
O Amapá, pra quem não sabe, faz parte da região norte do Brasil e é banhado pelo Rio Amazonas. Para uma parcela da população brasileira, as pessoas que moram para as bandas daqui não são “civilizadas”, por termos pouca ou quase nenhuma influência dentre os outros estados da região norte e menos ainda para outras regiões do Brasil. Um estado tímido em suas culturas o suficiente para parecer que nem falamos a mesma língua.
Se o Pará acabou levando toda a influência do brega e tecnobrega para o Brasil, o Amapá também bebe disso, mas eu acredito que o que temos de mais valioso na região norte é a gastronomia e a extensão de nossas áreas de reserva florestal.
Se por aí se busca ir atrás das suas raízes europeias, aqui se busca pelas raízes indígenas e quilombolas que, quase sempre, são extintas ou pertencentes de pequenos municípios ou áreas preservadas daqui mesmo.
Talvez por esse motivo, eu considero que nós temos uma ancestralidade genuinamente brasileira. Uma cultura que possui um apreço talvez incomum pelo bem natural e a valorização e conservação daquilo que é nosso. Nem sempre isso foi motivo de orgulho, mas desde que a internet se mostrou um lugar de identidade, alguns estão recordando e buscando tornar isso parte do que temos de mais precioso em nossa cultura, esse tipo de sentimento é tão recente que é visto em poucas produções que saem do estado, principalmente os de comunicação social atuais como esse que tô usando agora.
Ainda se percebe muita dificuldade de efetivação e avanço novidades tecnológicas por aqui, como a televisão digital que só foi totalmente implementada na capital em 2018 e a internet banda larga por fibra ótica que só chegou aqui em 2014. Lembrando que essas coisas chegaram, mas não foram adotadas por todos logo de início, já que tudo ainda estava em sua fase inicial e poucos tinham o poder aquisitivo para manter esse tipo de luxo.
Vindo na contramão o rádio, diferente de outras grandes cidades, ainda tem voz ativa por aqui e é uma das coisas que ainda fazem parte do cotidiano de muita gente. Muitos municípios ainda têm o hábito de ligar o rádio logo cedinho para se manter informado do que é importante para a sua região. E é por isso que pra mim, o podcast veio como uma necessidade de experimentar o que o amapaense contemporâneo também tem para mostrar aos daqui e aos de fora.
Se muitas inovações não funcionam ou não tem futuro aqui ser por falta de investimento ou necessidade não tem como saber, mas com esses exemplos se pode perceber que a cultura amapaense tem uma tendência para ser conservadora, e não apenas para o sentido da conservação de bens naturais, ou de velhas tecnologias, mas pensando também na questão política.
Uma parte disso pode refletir nos 55% dos votos válidos no Bolsonaro que o estado teve em 2018, só que ao meu ver, nada disso é refletido por como população amapaense realmente é; porque muitos dos que votaram no Bolsonaro tem pouca ou nenhuma relação com as propostas dele, mas sim com o idealismo conservador que, da mesma forma como acontece com o restante do Brasil que também elegeu ele, foram ingênuos e, totalmente às cegas, queriam uma mudança como a que estava aconteceu lá nos Estados Unidos com o ex-presidente também conservador Trump.
Hoje em dia o Brasil inteiro está colhendo as dores das suas escolhas e, ao mesmo tempo, a dor de finalmente perceber que aqui não funciona o novo que se vê lá fora, mas sim o que aprendemos com a história que esteve escrita e, de tempos em tempos tapamos os olhos. Uma história de personagens diferentes, mas repetida com uma direita que de avassaladora só tem em suas repressões, censuras e irresponsabilidade social.
Eu posso dizer que muita gente acredita que vive bem sendo amapaense; principalmente quando pensamos no preço que pagamos por coisas simples como água, alimentos naturais e certos tipos de medicamento e isso apenas reflete a importância de produtores e pesquisadores desses recursos que são daqui, pois são eles que conseguem achar e também produzir para fora.
É óbvio que governantes também percebem que, na exploração de nossas terras, tem fontes quase ilimitadas de crescimento. E é por isso que a região norte é afetada constantemente por exploração e venda ilegal de terras preservadas para outros países e empresas de (dentro e) fora do Brasil.
Só que recentemente, vimos que não é tão difícil enxergar que somos totalmente afetados por empresas que nada entendem da responsabilidade que é gerenciar os recursos de um estado, e tudo isso gerou um apagão que trouxe consequências históricas para o estado do Amapá.
Segundo um artigo de Jadson Porto e Katrícia Corrêa – pesquisadores da Universidade Federal do Amapá – que foi produzido em 2019, somente aqui no estado se tem 4 hidrelétricas e essas são interligadas para distribuição energética de todo o Brasil, em resumo isso tudo foi conectado através do Sistema Interligado Nacional. Para se ter uma ideia, apenas na Amazônia, temos o total de trinta e duas hidrelétricas.
Mas eu não posso falar por toda a Amazônia, mas posso falar bem sobre aqui onde nasci e me criei. Daqui na capital do Amapá, a cidade de Macapá.
Amapá em tupi, significa lugar da chuva. Já Macapá, significa o lugar das bacabas. Bacaba é um fruto muito parecido com o açaí, e é extraído da mesma forma mas não tem o gosto parecido, pelo menos eu não acho.
Ser de macapá, pra mim, é olhar para as questões sociais e achar que também faz parte da nossa cultura e que poucas coisas são tão fáceis de se mudar. Eu sempre tive a impressão que os problemas não são resolvidos por aqui por uma necessidade muito grande de se ser isento da responsabilidade. Parece que eleger alguém não é grande coisa, é como se a burocracia de ser político é tão grande que ninguém gosta de fazer esforço nenhum pra aprender. Quem aprende, percebe que quase nenhuma teoria política funciona no Amapá, aliás, tem uma que funciona e ela se chama: dinheiro.
O dinheiro não paga entendimento social, mas paga implementações mal feitas de um estado capitalista num estado como o nosso, pois é esse o foco de boa parte dos governantes que acabam ganhando as eleições por aqui, como o estado ainda engatinha nas suas necessidades tecnológicas, se faz disso uma boa proposta, mas no longo prazo se percebe que é muito mais do que isso, eu acredito que existam muitos pequenos estados e municípios pelo Brasil sofrem do mesmo mal.
Quando o governo se precipita em implementar privatizações de qualquer jeito, sem pensar no histórico ou até mesmo na estrutura da cidade para receber esses tipos de mudança, negligências como a da empresa Gemini Energy, que deixou de fazer a manutenção do transformador Backup que causou o apagão de 22 dias no estado, aparecem. A energia que recebemos antes mesmo do apagão nunca foi de qualidade, e já estávamos acostumados a não receber muita informação, mas quando isso tomou uma proporção muito grande, a primeira justificativa encontrada pela empresa foi botar a culpa em uma falha natural de raio na subestação, mas já vimos os fatos disseram o contrário.
Temos esse nosso jeito de achar que somos uma parte isolada do resto do país quase o tempo todo. E muito do que se pensa é que ter mais de 70% da nossa área ocupada por terras indígenas e áreas preservadas não serve de muita coisa pra economia do estado, então vamos aceitando qualquer implementação que dê certo por aí, afinal, qualquer coisa é melhor que coisa alguma. Pelo menos é isso tentamos acreditar com toda a nossa vontade pra não ter que se preocupar com mais um problema. E eu acredito que foi isso o que aconteceu quando decidiram abranger o Amapá no Sistema Interligado Nacional, mas o sistema elétrico do Amapá é precário e mal implementado.
Como morador daqui eu não sabia que teria a necessidade de um dia criar conhecimento de que a energia que a gente gera é muito maior do que o estado precisa, e que simplesmente não usufruímos dela, ou seja, fornecemos para depois pagar mais caro do que os outros estados que recebem a nossa energia e isso não faz o menor sentido.
Ficar sabendo disso depois de um problema tão gigantesco como foi o apagão é algo que entra pra lista das normalidades mais problemáticas que lidamos e volta e meia alguém tenta juntar algumas centenas de pessoas pra – como alguns dizem – fazer baderna na rua por causa delas. Porquê de normalidades absurdas já vivemos todo dia, como é normal termos frotas de ônibus sucateadas mesmo a tarifa sendo renovada todo ano; É normal hospitais não terem reforma, equipamentos e remédios. É normal que boa parte da renda do estado seja gerada principalmente por cargos públicos e esses terem seus salários cortados em dois todo
É normal faltar energia toda semana em alguns bairros ou municípios, principalmente quando chove, afinal a gente só tem 4 hidrelétricas…
Ué, não é só por isso?


Kai
Sobre o apagão, eu acabei ficando muito doente e eu fiquei com COVID também, nessa época. E, a gente começou a ficar racionando comida, comendo pouquinho pra sobrar pras outras pessoas, porque tava faltando comida, tava caro as coisas. Comecei a ficar muito estressado, não consegui mais dormir direito. Fiquei refletindo, assim, sobre todas as pessoas que estavam passando por essas coisas e cada dia era uma notícia pior. Eu também tentei fazer um trabalho, que pudesse falar sobre o apagão até fiz um texto e tal; Acabou que não deu certo, mas até me instigou a escrever, a querer produzir alguma coisa pras pessoas saberem que a gente existe né, naquele lugar e tal, apesar de eu não ser de macapá, mas eu tava morando lá né? E eu fiquei muito indignado e tal, de saber que os meus amigos e as pessoas que eu gosto, e várias pessoas passando por essa situação.


Paula
A minha situação, a minha vivência com relação ao que aconteceu durante o apagão foi não tão conturbada quanto a maioria das pessoas passou aqui em Macapá né? E aí, no outro dia a energia não voltou, só que a gente já tinha feito compras do mês e nós tínhamos água mineral. E quando a água acabou, da caixa (d’água) que foi fodido, porque a mamãe teve que pegar um fio, daqueles de varal e amarrar em um balde pra puxar água do poço. A nossa mão ficou toda calejada e machucada, mas a gente conseguiu encher só metade do balde — de um balde grande que a gente que nos temos do lado de fora — e aí quando foi em um outro dia, e estava chovendo, não tinha o que fazer eu resolvi então ir no poço da vizinha que tem uma casa que está inabitada e todo mundo tava pegando água do poço de lá porque eles tinha aquela ferramenta de puxar água né, aquela madeira lá, que eu esqueci o nome daquilo. E aí eu fui até andando até a casa da vizinha, e o balde era pequeno, mas era o que eu conseguia carregar. E eu fiz eu acho que umas quarenta voltas, ida e volta, puxando a água do poço até que eu consegui encher. Aí nisso a gente conseguiu ir tomando banho, e aí foi isso. Basicamente, quando eu tinha bateria no celular e energia eu tava tentando me informar do que tava acontecendo, foi isso.


Só quem é do norte entende os prazeres e as dores de ser daqui. Quando eu penso em Macapá, eu vejo esperança e desespero; Uma ambiguidade que só demonstra o quanto a vida é difícil de entender. Pois ao mesmo tempo que consigo ver os lugares onde surge aquele velho ditado de “farinha pouca, meu pirão primeiro” em que em toda situação de emergência se limpa as prateleiras de água mineral, produtos enlatados ou formam filas nos postos de gasolina, também se vê bairros e vizinhos se unindo pra dividir comida, água e suas dores por estar vivendo por mais esse tormento por apenas ser amapaense, como se o COVID não fosse apenas o nosso maior inimigo.
Faltar energia a noite aqui no estado é uma coisa que eu lembro de acontecer desde que eu era criança. Então a melhor coisa a se fazer, eu sempre achei que era tentar dormir.
Quando chegou no outro dia e nada tinha voltado, ligamos o rádio à bateria, como uma das nossas rotinas pela manhã, e a primeira notícia que tivemos era que o problema era mais sério do que se pensava, e tudo isso tinha sido culpa que um raio caiu na subestação de energia durante a chuva da noite e que 13 dos 16 municípios do estado estava sem luz e água por conta disso. Muita gente ficou achando que era mais um problema corriqueiro da Companhia de Eletricidade do estado e que logo ela voltaria como em toda semana que já faltava sem qualquer explicação.
Quando chegamos no fim desse primeiro dia completo sem energia, a minha cabeça passou a se preocupar com algumas questões de sobrevivência, para saber se tínhamos água suficiente, se a comida que tinha podia estragar logo. Acredito que o primeiro e segundo dia foram os menos nervosos, mas quando chegou na primeira semana tudo mudou e o caos ter se instaurado com tudo que era perecível estava se perdendo na geladeira e o que não era sumindo das prateleiras. Compras importantes para a nossa alimentação no restante da semana e do mês tinham que ser a prioridade da refeição pra não ter que ir pro lixo; O sentimento de emergência para as questões tão básicas também trazia ao pensamento que mesmo que eu não estivesse junto da Paula e do Kai dos relatos que eu trouxe, ouvindo eles percebi que esse problema agora nos unia de uma maneira diferente.
Esse mesmo sentimento pode ter unido a população em geral, e começou efervescer com a notícia de que não era algo simples de resolver, e pior, quando chegou a notícia de que não foi um desastre natural, mas um erro sistemático. Uma negligência, das tantas negligências que já tanto sofríamos todo dia e mal sabíamos, que esse seria um mês recheado de incertezas, adaptações e lutas para aprender a viver desse jeito por mais tempo que imaginávamos.


Meris
Eu me chamo Meris Fabíola, tenho 21 anos. Eu sou residente do conjunto Cidade Macapaba. Olha, a situação que tá a gente tenta ficar em isolamento, mas como eu falei, lá onde eu moro não tem como ficar em isolamento, porque é quente, não tem água. As pessoas do macapaba tão dependendo do carro pipa, todo mundo tem que descer, aglomerar pra pegar um carro pipa, então é pensar entre a sobrevivência de tomar água e se previnir do corona e as pessoas tão optando a beber água, buscar alimento, do que ficar em casa em isolamento agora no estado que a gente tá vivendo agora nessa segunda onda.


Sereia Caranguejo
Eu tenho vários nomes. E por hora é Sereia Caranguejo, eu sou estudante… estudante não, eu sou licenciado em artes visuais, tenho 25 anos e moro na Zona norte, Jardim 1.
Eu queria que as pessoas se conscientizassem e olhassem o outro, sabe. A casa do lado, por exemplo, porque o que a gente mais viu agora, o que a gente mais sentiu foi essa solidariedade, porque quem era as pessoas que estavam se ajudando era as pessoas próximas, eram os vizinhos como lá em casa, que a gente tá sem, a gente não tem poço amazonas mais, a gente só tinha poço artesiano, e aí uma pessoa que tinha poço amazonas, que é a minha mãe que mora na frente, ela distribuiu pra galera de lá de perto, então eu acho que essa solidariedade tem que ser pra além disso.


Wellington
Meu nome é Wellington, tenho 33 anos. Eu moro aqui no Centro mesmo. Como eu disse, na minha região não normalizou de fato, né. Algumas partes aqui do Centro não tem, não tá tendo energia né? E, acho que o centro não representa a realidade da cidade toda, do estado todo né. Que tem muitos bairros, principalmente da periferia, que não tem energia nem o rodízio tá sendo respeitado, né. Nem é um rodízio na verdade, né? Tem bairros, por exemplo, que duram duas horas, como o Congós. Então, mesmo que eu diga que tá normal na minha casa, no estado todo, na cidade toda não está normal. Não tem nada normal.


Marta
Meu nome é Marta, eu tenho 24 anos, eu moro na zona norte de Macapá, na capital, e eu moro no bairro do renascer, que fica no meio da zona norte. No começo da zona norte, na verdade.
Hoje eu vim me manifestar, mas não é a primeira vez que eu participo dos atos. Já participei duas vezes, só que em atos localizados em bairros. Que são bairros periféricos daqui da cidade, onde tá tendo tô todo dia, gente. Dos moradores locais mesmo, a vizinhança se reúne e fecha a rua, e eu estive em alguns atos desses, estive conversando com a vizinhança também. E assim, a revolta, ela é muito grande, é uma revolta generalizada que a gente tá vivendo nesse momento, diante desse contexto. Aí hoje, tivemos uma manifestação aqui no centro da cidade, e essa manifestação do centro da cidade se somou às inúmeras outras manifestações que tão tendo em toda a cidade. Então eu vejo isso como uma forma que a gente tem. A única forma que a gente tem de dizer o que a gente tá passando, de ter voz, porque a rua, ela é o espaço mais democrático que existe. E é nela que a gente deve ficar, que a gente deve ocupar, e é nela que a gente vai ser ouvido.

Pacíficas ou não, eu não descarto que todas as manifestações foram necessárias. Essas ações pela cidade, alertou a polícia e a política.
Toda incerteza perdurou até fim do apagão, e é difícil até hoje dizer se alguma das reivindicações tenham sido sanadas no tempo que aconteceram; pois os gritos de socorro não vieram apenas através do problema com a energia, mas também seguidos com balas de borracha, gás lacrimogêneo, perseguições e nunca do apoio do governo federal e estadual.
As eleições, por sua vez, foram adiadas até que se resolvesse o problema, mas a falta de comunicação geral também fez com que surgisse políticos bem e mal intencionados para ajudar ou também poderíamos dizer, investir em suas campanhas que estavam em andamento.
E onde não surgiram essas situações controversas de políticos dando cestas básicas, galões de água e dinheiro em troca de apoio na campanha, várias Organizações não-governamentais surgiram para fazer algo e coletaram doações de água e alimentos não-perecíveis para quem estava precisando nas regiões periféricas e isso foi, para muitos a única ajuda que era necessária se ter num momento tão sensível como esse.
03 de novembro o primeiro apagão; seguido dele, cinco dias depois, um rodízio controverso que nem chegou em todos os bairros e municípios; Um segundo apagão no dia 17 de novembro, após as eleições do dia 15 que ocorreram apenas em outros municípios e não na capital. Bolsonaro chega no Amapá no dia 19 para ligar um gerador que não serviu para mudar nada na rotina atual de rodízios que já aconteciam e anuncia uma óbvia medida provisória de nos isentar do pagamento do mês de novembro na energia e novamente questionamos o porquê de esse tal rodízio não funcionar em mais lugares, mais protestos em mais de 120 manifestações registradas e relatos de famílias que com o rodízio agora diminuído de 6 em 6 para 3 em 3 ou 4 horas, que ninguém sabia mais como acompanhar e perderam mais uma vez seus bens materiais, suas noites de sono por causa do calor, dos mosquitos, de acordar de madrugada pra desligar eletrodomésticos e a sua sanidade por não saber porquê de o governo estadual e federal não se responsabilizarem para além do que apenas apertar botões e nos isentar de valores que não pagam comida estragada, os gastos com vela, água mineral, as doenças adquiridas e as muitas outras reivindicações que só mexem o sentimento de falta de dignidade que somos tratados todos os dias.
E então a energia foi “completamente restabelecida” em 100% do estado no dia 24 de novembro; 22 dias depois do primeiro apagão, tínhamos energia; Vinte e dois dias de não saber quando a vida iria dar uma trégua para as dificuldades, de comida sendo perdida na geladeira, de manifestações, de repressões, de lutas pessoais e sociais, de doença por beber água imprópria pra uso, de doença de pandemia mundial.
Depois de tudo, um alívio, com ele veio a contagem dos danos e percepção do que era além de danos, mas feridas que continuavam doendo no dia a dia; veio as notícias que se perderam como das mortes e infecções do COVID que não foram contadas, de casas que foram incendiadas com a ida e vinda da energia, veio o silêncio das primeiras noites bem dormidas de sono, e o silêncio das manifestações, junto delas as rotinas de trabalho sendo restabelecidas pra poder arcar com os custos de todo esse caos. Como se essa fosse a nossa culpa.
E então um terceiro apagão. um pouco menos de dois meses depois do retorno; Foi perceptível o sentimento de fúria e desespero retornando ao ar, a mente duvidando das notícias em que podíamos retornar com a nossa vida, mas tudo isso durou apenas quatro horas. O pensamento maior era: O que a gente fez pra merecer tudo isso?
Mais uma história que entra para os medos irracionais amapaenses.

“Que vida boa sumano, nois não tem que fazer planos e assim vão passando os anos, eita que vida boa.”
Vida boa de quem voltou pro estado depois que soube que tava tudo certo novamente por aqui. Que pegou seus familiares e os abrigou nos prédios que tinham geradores. Que usou dos seus privilégios para fugir da realidade daqui. Alguns. Não todos. Quem fica, fica por não ter outra opção, entende que se não votar nos candidatos que deram o contrato de serviço público, vai ter que passar um tempo longe da vida boa, porque quem consegue pagar essa energia tão cara?
Ser amapaense, pra mim é estar inerte por não perceber a opção de lutar, de não saber em que candidato votar por não me ensinarem nas escolas que a política não é a que coloca comida na mesa do governador e do prefeito, mas a que tira da boca das periferias pra colocar no asfalto da rua onde se passa o carro de luxo do Doutor.
Esse doutor não é daqui e o dotô que tá lá no senado foi prejudicado, coitado, ele só queria puxar mais o saco de farinha que tá nas mãos do capitão pra mostrar que o estado dele tem mandioca, mas pra isso precisa apoiar um farinheiro que nunca fez farinha e está sendo muito prejudicado por isso, pobrezinho,
“Farinha pouca meu pirão primeiro.”
Eu sou do norte, eu sou forte. Forte pra viver isso tudo e aprender que ser daqui não é ser forte de corpo, mas de mente. Talvez por isso, o nosso forte nunca teve um canhão disparado e a nossa ameaça que nunca veio talvez tenha se tornado nós mesmos, ou será que é o nosso companheiro?
Farinha pouca, meu pirão primeiro.
E assim, vamos passando os anos. Eita. Que vida boa.

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Créditos das músicas usadas neste programa

Music by Dan-O at DanoSongs.com

Music by Kevin MacLeod (incompetech.com) licensed under Creative Commons: By Attribution 3.0 – http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/

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