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#18 – A Lagoa de Narciso da Era Digital

O Vírgula Dobrada Network contempla a vida e o Amapá do jeito que é. — Ouça os podcasts hospedados conosco.

22 min de leitura

Tentamos abrir diálogo sobre as dificuldades da convivência entre as polaridades sociais na era digital, e a nossa capacidade de conseguir nos fechar em buscar a nós mesmos no outro.

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22 min de leitura

O quanto que você acredita que passou a deixar que a sua vida esteja envolvida com pessoas relativamente parecidas? Você já parou para olhar o seu ciclo social e tentou entender o que eles tem em comum? Acredite ou não, a gente está cada vez mais disposto a se relacionar apenas com pessoas que tenham os mesmos gostos que nós e mesmo assim parece que está muito difícil encontrar bons amigos. Tentarei explicar essa e outras coisas nesse episódio usando uma pesquisa que fiz com 25 pessoas sobre as suas tendências relacionais. | O roteiro desse episódio pode ser encontrado no virguladobrada.com.br/18 | Eu sou o Diego Malva, e esse é o Vírgula Dobrada Podcast.

“Narciso era um rapaz plenamente dotado de beleza. Seus pais eram o deus do rio Cefiso e da ninfa Liríope. Dias antes de seu nascimento, seus pais resolveram consultar o oráculo Tirésias para saber qual seria o destino do menino. E a revelação do oráculo foi que ele teria uma longa vida, desde que nunca visse seu próprio rosto.

Narciso cresceu, e se transformou um jovem bonito de Beócia, que despertava amor tanto em homens quanto em mulheres, mas era muito orgulhoso e tinha uma arrogância que ninguém conseguia quebrar. Até as ninfas se apaixonaram por ele, incluindo uma chamada Eco que o amava incondicionalmente, mas o rapaz a menosprezava. As moças desprezadas pediram aos deuses para vingá-las. A deusa Némesis, o condenou a apaixonar-se pelo seu próprio reflexo na lagoa de Eco. Encantado pela sua própria beleza, Narciso deitou-se no banco do rio e definhou, olhando-se na água e se embelezando. Depois da sua morte, Afrodite o transformou numa flor, a flor de Narciso.” — Wikipédia

Ao buscar analisar os meus relacionamentos amorosos – ou mesmo os relacionamentos com as pessoas, no geral. percebi que tinha um sistema relações que me parecia complexo no início, mas que é extremamente simples de entender a todo momento em que eu passo a me sentir confortável ou desconfortável com certas pessoas. Algumas perguntas para mim foram essenciais para que esse episódio seja possível: Por quê eu estou ou estive sofrendo por essas relações, por quê me afasto dessas pessoas aqui ou gosto de estar perto e demonstrando afeto por aquelas outras?

Já ouvi, li e também já estive com o papel principal em muitas histórias de relacionamento abusivo e enquanto não parei para ver os padrões desses relacionamentos, me mantive sofrendo dentro deles. É complicado ver que mesmo percebendo isso ainda é simples cometer os mesmos erros nos próximos relacionamentos.

O fato é que não é fácil perceber os problemas que são cíclicos, problemas dos quais a gente acha que nos perseguem mas que, na verdade, é nós que vamos de encontro à eles o tempo todo. É mais confortável manter relações abusivas, quando para poder ter algo saudável demanda que a gente saia da zona de conforto para agir e fazer com que dê certo, completamente diferente de ter que continuar sofrendo pelas coisas das quais a gente já está acostumado. Tanto opressor, quanto oprimido se acostumam com o seu papel em um relacionamento, no trabalho, na universidade, escola, enfim.

Uma das desculpas pertinentes aqui em Macapá, que é a cidade que eu moro, é a de que todos se conhecem e de que é muito fácil uma pessoa que você se relacionou acabar se relacionando com alguém que você conhece ou conheceu em algum momento da vida. Esse tipo de coisa acaba dando abertura para que todos tenham muito o que dizer sobre o relacionamento das pessoas sem que, na verdade, se possa ter certeza do que a pessoa é ou deixou de ser. É por isso que se torna comum muitas pessoas não buscarem a mudança em suas vidas aqui na minha cidade, é mais fácil aceitar aquilo que os outros acham de nós do que encontrar o que realmente nos faz bem.

Quando tento trazer o dilema das câmaras de eco, também conhecidas como bolhas sociais, para esse espectro das relações digitais, que organicamente já fazem parte do nosso cotidiano, tem muita coisa pra se discutir, mas acho que a única coisa que me cabe falar aqui com mais segurança é a da nossa facilidade em confundir a capacidade de amar a si mesmo, com a ideia geral de narcisismo.

Eu acho que já devo ter falado várias vezes aqui dos benefícios de se tornar uma pessoa que goste de ir de encontro aos seus próprios amores, de compreender as suas necessidades pessoais e estar sempre disponível para lutar pela sua liberdade pessoal de expressão. Ainda que eu goste desse tipo de pensamento para os momentos de desamparo social — que parece uma das complicações atuais mais comuns, quando deixamos querer entender nossas relações tão complicadas, estamos também deixando de fazer coisas que nos fazem bem. Isso é bem diferente de deixar as pessoas estarem na sua vida apenas para seu próprio benefício o tempo todo.

Particularmente, compreendo a minha zona de conforto quando se trata das relações, normalmente busco estar próximo de pessoas que prefiram falar sobre si do que tirar conclusões sobre as pessoas, que tenham características positivas e construtivistas, que sejam bem resolvidos consigo mesmos e que busquem estar em paz com as pessoas ao seu redor. Essas são características que atualmente eu estou buscando deixar de lado, e é por isso que estou também me propondo refletir aqui, outro motivo para isso é também para observar o meu comportamento com o diferente.

Me parece mais saudável estar próximo de gente que eu gostaria de ser e não o contrário, isso me fez seguir em frente e aprender muito sobre mim mesmo, mas será que é possível que eu me acostume com isso e deixe ampliar minhas relações para outras que não se encaixem com essa minha zona de conforto? Como que eu aprendo a não deixar de lado até as opiniões mais controversas? É possível manter contato mesmo com aqueles que não me identifico de maneira alguma?

Para fugir completamente apenas dessas experiências pessoais minhas, que tá sendo o oposto do que to tentando refletir nesse episódio, eu e minha companheira enviamos quatro perguntas à seguidores, amigos e colegas para que se ampliasse as perspectivas apontadas aqui. A resposta de todas as pessoas estão no link do post aqui na descrição desse episódio.

A primeira pergunta era sobre o tipo de pessoas que elas têm mais facilidade de se comunicar ou de fazer amizade, e por que acham que é mais fácil mantê-las. Vinte e cinco pessoas responderam. Eu escolhi delimitar as respostas dessas pessoas com dois critérios. Pessoas exigentes, e pessoas não-exigentes. Onze das que eu considerei exigentes, delimitam suas amizades de acordo com seus próprios confortos, demonstram que preferem iniciar e manter contato apenas com aqueles que compartilham gostos pessoais e sociais parecidos. Quatorze demonstraram que não tem critérios muito exigentes com as amizades e que tem preferências por pessoas que supram o que falta nelas.

Em especial, uma das pessoas que não possuem exigências citou bem os dois lados que eu escolhi delimitar nesta pergunta. Ela disse o seguinte:

“Eu tenho duas explicações, ou a gente procura um pouco do que falta na gente ao se relacionar com alguém, ou queremos alguém que nos entenda, por serem do mesmo jeito que nós.”

Não sou muito bom em análises estatísticas, mas considerei os 44% exigentes e 56% não exigentes bem equilibrado, se levarmos em conta apenas os 6% de margem entre um e outro. Ao fazer essa pergunta, meu objetivo inicial era saber o quanto que a gente se experimenta quando conhecemos alguém. Se deixamos com que nossas imagens pessoais e pré-conceitos do outro interfiram quando não nos identificamos inicialmente com ela, se preferimos levantar barreiras antes mesmo nos aprofundarmos no que essa pessoa pode compartilhar conosco.

Não sei se preciso falar do quanto que é perigoso delimitarmos filtros ao conhecemos alguém, principalmente quando não é só as nossas próprias concepções que estão inseridas nesses filtros, mas sim muito do que aprendemos com a vida mesmo. Eu não posso julgar as pessoas que preferem ser exigentes ao conhecer alguém, principalmente se essa pessoa já teve algumas experiências ruins quando deixou esses filtros de lado. Também é bem possível que as pessoas exigentes transitem entre as que não são, principalmente se ela fez amizade com alguma pessoa que não tem exigências e essa, muito provavelmente, estará rodeada de pessoas das quais terá que conviver uma hora ou outra.

No fim, eu considero as pessoas exigentes como aquelas que precisam de sua autoafirmação. Em curto prazo eu acredito que isso é muito bom, faz com que passemos a nos entender mais e também a compartilhar nossos gostos para, enfim, resolver consigo mesmo as glórias de saber quem é. No entanto, a longo prazo acredito que isso pode instaurar uma insatisfação consigo também. Tanto que passamos a ver que era só aquele pequeno fragmento de você que te fazia estar junto daquela pessoa, e é aí que a gente percebe que acaba não aprofundando nas complexidades de cada um. Isso nos impulsiona a estar o tempo todo conhecendo mais e mais gente que esteja de acordo com nossos filtros, mas que nunca se estabelece uma relação realmente significativa quando elas te mostram que são bem mais do que a qualidade que se descobriu quando a conheceu. Algumas pessoas se surpreendem de um jeito bom com esse conhecimento, e outras nem tanto.

O mais complicado é que é extremamente fácil hoje em dia a gente manter relações com pessoas exigentes, a maioria das relações que estabelecemos com as pessoas não é mais no pessoal, mas através de meios de comunicação que já possuem seus nichos estabelecidos pelas pessoas que o compõe. Tudo isso só é possível de se manter quando analisamos a força que a internet trouxe para ajudar nessa autoafirmação.

Li um artigo de Cass Robert Sunstein que ajudou a problematizar ainda mais esse pensamento individualizado. Nesse artigo, ele caracteriza o momento em que vivemos hoje dentro da internet como uma espécie de “Jornal Eu”: consumimos apenas aquilo que a gente acha conveniente para nós. Estreitamos laços com gente e empresas que compartilham dos mesmos ideais que nós e cortamos laços com aqueles aqueles que possuem qualquer outro pensamento fora do nosso comum.

A proposta do artigo de Sunstein é mostrar o quanto até a própria democracia se tornou ameaçada dentro dos meios de comunicação, por estamos habituados a consumir apenas o que nos é conveniente e passarmos a esquecer completamente os outros que não tem qualquer semelhança conosco.

A partir do momento em que podemos polarizar, melhor dizendo, concentrar nossos pensamentos sociais apenas no que nos convém dentro da internet, fica difícil pensar nos outros pontos de vista, nas outras pessoas que nunca vão ter a oportunidade de conhecer aquilo que para você é essencial.

A segunda pergunta que fiz lá na pesquisa, vem para firmar esse argumento. Nela, eu perguntei se existiam pessoas em que elas não preferiam se relacionar e o porquê. Não vou falar muito de números aqui, pois nessa as respostas foram em sua maioria bem parecidas. A parte interessante para a pesquisa eram os seus motivos particulares. Todas vêm carregadas de pensamentos éticos e morais de cada um, se torna quase impossível distinguir as que possuem pensamentos exigentes e não exigentes aqui. O porém vem mesmo quando elas buscam afirmar seus próprios preconceitos das pessoas, o que se considera certo e errado em alguém.

Na terceira pergunta eu gostaria de causar uma opinião controversa à essa segunda. Para entender se elas acreditam veemente que suas relações duradouras são apenas com as pessoas que elas realmente visualizam na sua cabeça. Eu deixei livre para que as pessoas se sentissem a vontade de dizer o que gostariam de dizer nessa pergunta, sem pedir por argumentos, então estou considerando aqui apenas as respostas das pessoas que se sentiram a vontade de compartilhar as reflexões sobre as relações pessoais delas. Foi ótimo perceber o engajamento dessas pessoas na pergunta, encontrei nessa um ponto de autocrítica sobre as relações que elas mantém, mesmo que algumas pessoas não tenham todos os padrões que elas estipularam nas perguntas anteriores, percebi que puderam ver que não dá para ter controle e sempre vai ter alguém que é o ponto fora da curva de seus padrões e ainda assim, são pessoas boas de se relacionar.

Por último, na quarta pergunta eu fui bem explícito com as minhas intenções com a pesquisa e pedi relatos de cada um sobre os momentos em que escolheram se relacionar de maneira afetiva ou não com pessoas fora da ideia delas de bolha social. A maioria das respostas caíram para o lado negativo, eu certamente esperava isso, por isso que me surpreendi com as sete pessoas que puderam enxergar de forma positiva as suas experiências com pessoas com ideais diferentes dos delas. Compreendendo esses dados, eu posso dar continuidade na minha reflexão sobre a existência, ou não, desse narcisismo dos meios digitais.

O artigo de Sunstein, que eu citei ainda a pouco que falava sobre a democracia nos meios de comunicação já estabelecidos, em especial na internet, foi publicado no segundo semestre de 2001, mas essa problematização do que consumimos na internet está cada vez mais atual e parece mais próximo da nossa realidade do que nunca. Ele, partindo de um pensamento que parecia utópico, refletiu na possibilidade de uma completa individualização dos nossos meios de consumo, com isso seria extremamente fácil para nós seres humanos preferir consumir apenas aquilo que nos agrada e esquecer todo o resto.

Todas as pessoas da pesquisa falaram sobre experiências pessoais com o diferente, experiências que certamente viveram e tem histórias que as atravessam e podem defender as suas opiniões. Muito diferente da maneira que normalmente nos portamos nas redes sociais quando vemos um pensamento diferente do nosso, o mínimo acaba nos afastando de qualquer contato antes mesmo de sequer conhecer o outro pessoalmente.

As redes sociais demonstram a fragilidade em toda e qualquer relação atual, a gente passa a apontar o valor das pessoas pelos gostos que essa escolheu compartilhar em seu perfil online, quando que antes do advento dessas redes, passaríamos a ter que ouvir e tirar nossas conclusões para só assim expor nossa opinião sobre ela. Essa polarização se instaurou mais significativamente depois das eleições agora de 2018, claro, mas eu acho que esquecemos de analisar também os outros dilemas que o próprio afastamento dessas pessoas dos nossos meios pode causar.

Quando há essa troca no pessoal a gente tem mais formas de exercermos ativamente o nosso papel social de ter opinião, liberdade de expressão e ainda temos mais fidelidade com nossos sentimentos. É claro que existem casos que fazem parte da ponta extrema do nosso conceito de moralidade, mas nem sempre dá pra se defender das falas extremistas nas redes do parente que também é a pessoa que te dá abrigo e comida, da avó que te trata super bem quando vai na casa, do tio que é a primeira pessoa que te ajuda a seguir em frente.

E é aí você olha para as pessoas que considera empáticas na sua vida,  mas que não conseguem estar presentes na sua vida fora das redes. Existem questões que precisamos sentir da pessoa que está do nosso lado, muitas vezes não é possível mudar seu pensamento, mas só por ela respeitar sua opinião e fazer parte do cotidiano dela, torna mais fácil ter abertura para novos diálogos construtivos. Tolerar é diferente de perdoar o pensamento controverso ao seu. Você está mantendo as suas questões pessoais e ainda pode estar se expressando e enfrentando esses momentos que entram em conflito com seus ideais. Você acredita que possui essa liberdade quando tá próximo dessas pessoas, quando não, às vezes é o momento mexer os pauzinhos para conseguir se sentir bem.

Sunstein em seu artigo, propõe uma solução para essa internet individualista. Fala para que tenhamos mais contatos com “materiais que não tenhamos escolhido previamente”, e chamou de “encontros imprevistos” aquelas experiências que não temos controle do seu aparecimento, mas que é apenas dentro destes encontros que passamos a ter mais experiências compartilhadas com outros pontos de vista, mesmo que não conversem com a nossa realidade, são igualmente importantes. Trazendo isso para a vida fora da internet, não adianta nada se afastar dos pontos de conflito, e principalmente, das pessoas que você nem mesmo chegou a ter contato contínuo, ou deu qualquer abertura para que se tenha uma conversa que não enfrente a ideologia que foi construída na pessoa que nem ela tem consciência que tá presente.

Sei que para muita gente partido político e os próprios políticos são como time de futebol ou o seu ator, banda, cantor ou personagem favorito de uma série ou filme, mas opiniões são opiniões. As únicas coisas que a gente faz com ela é compartilhar com nossos iguais para afirmar nossa identidade ou compartilhar com os que a gente tem vontade de aproximar ou afastar do nosso ciclo social. Mesmo que pareça extremamente difícil hoje em dia deixar de lado aquilo que para nós é crucial para uma boa convivência, para que passemos a tentar compreender melhor as várias faces de uma mesma história é necessário que se deixe mesmo que o outro tenha a sua contribuição e não privá-lo de seu sentimento individual de liberdade.

Mesmo os maus exemplos são exemplos, e os bons exemplos são controversos quando tentamos transportá-los à vida das outras pessoas, não adianta nada ter a solução para um problema, se a pessoa não teve as mesmas experiências que você. E lembre-se, quando afastamos as pessoas dos nossos ciclos por ela ter um pensamento diferente do nosso, ela provavelmente vai se juntar a outras pessoas que pensam que nem ela. Antigamente, sem a internet, nós costumávamos valorizar mais as pessoas, iamos atrás, pediamos desculpa, conversávamos sobre o problema, e tentávamos minimamente apoiar e por muitas vezes acompanhar as mudanças na pessoa. Hoje, essas mesmas pessoas tem a possibilidade de segregar completamente o seu meio, e perder o contato com quem as fazem e as querem bem na vida, bem diferente de agora que escolhemos pular do barco antes mesmo de resolver o problema.

É possível que tenhamos nos tornado mais individualistas nesses tempos, e que eu não consiga mais levar em consideração levantar essas questões às pessoas sem ter que atentar para o contraste das opiniões que existem. Desde as últimas eleições, as pessoas ainda persistem em continuar a briga pela segregação, e é importante lembrar que isso não se fecha só para um dos lados, mas para ambos. Não precisamos cortar laços para que afirmemos a nossa opinião, ela está em nós e comprovar isso é conseguir ouvir o outro sem que seja necessário obrigar a entender que ele está errado.

Um termo que acho importante trazer para que a gente possa querer causar um pouco menos de atrito uns com os outros quando se trata de política é o do raciocínio motivado. No ramo da psicologia, esse termo aparece quando já aceitamos uma verdade pessoal sem comprovar por meio das estratégias cognitivas, ou seja, através de pesquisas, fontes e interpretações gerais sobre determinado assunto. Com isso, passamos a ter uma tendência inconsciente de dar mais valor a dados que confirmem as nossas preconcepções e fazer pouco de toda e qualquer informação que contradiga a sua fé.

Outra coisa importante para se lembrar durante uma conversa com uma pessoa que tenha pensamentos contraditórios com a sua ética, é o do conhecimento do hábito. É quase impossível que você consiga mudar a opinião de alguém durante uma conversa inicial, pra se ter uma ideia demoramos de 20 a 60 dias para acreditarmos que um hábito realmente se tornou automático, não vai ser uma única conversa (ou discussão) que vamos fazer outra pessoa mudar sua construção política ou moral de uma vida inteira. É por essa razão que escolher não afastar as pessoas da nossa rotina nos faz ter que entender artifícios para que a compreenda e consiga conversar sobre assuntos cada vez mais importantes sem que a machuque.

A pesquisa que fiz para esse episódio comprovou que é fácil começar e manter relações com pessoas com imagens controversas às que esperamos de alguém, e que isso não impede de mantermos contato com tais pessoas, desde que essas pessoas sejam elas mesmas (espontâneas) e sinceras com o seus pensamentos (despretensiosas). Percebemos também o quanto que é perigoso quando colocamos muitos filtros antes de conhecer alguém, pois faz com que as relações se baseiem nos filtros e causem dificuldades de ampliar o conhecimento do outro.

A internet é muito democrática sim, quando partimos do princípio de que todos podem fazer parte dela e expor nossos pensamentos uns aos outros, mas até onde você consegue ir somente buscando a si mesmo nas outras pessoas? Que caminho a sociedade pode tomar, se todos escolhermos nos fechar somente naquilo que um algoritmo de rede social nos mostra?

Seja empático com os ciclos de cada um, pra mim não dá mais pra ficar reclamando da ausência do outro na nossa vida, quando nós mesmos excluímos a voz dela em nossas conversas. Acho que já tá mais do que na hora de pararmos de botar a culpa no outro, e colocar dentro do nosso discurso individualista a própria autocrítica, a bolha social não estoura só com o nosso dedo que aponta para os outros, mas sim quando deixamos com que os outros apontem para nós do outro lado dela também sem que se critique isso.

Para finalizar essa reflexão eu trago uma frase de Jaron Lanier sobre as redes sociais:

“Não dá pra viver em uma sociedade em que duas pessoas só podem se comunicar se forem bancadas por uma terceira que só tem interesse em manipulá-las.”

Como lidar com uma lagoa que agora não sai das nossas mãos?

Muito obrigado! Esse está sendo o primeiro episódio em que eu deixei de lado a produção massiva que eu tinha comentado no episódio anterior e passei a deixar com que eu realmente me sinta confortável com tudo o que gostaria de abordar aqui do início ao fim. É claro que sempre vai faltar uma coisinha aqui e ali, mas caso você queira dar sua contribuição, o meu e-mail diego@virguladobrada.com.br tá aberto e os comentários no post desse episódio estarão sempre lá para você. Lá na postagem do site também, eu sempre deixo o link com as referências usadas nesse episódio caso você mesmo queira uma aprofundada sozinho.

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Créditos das músicas usadas neste programa

Music by Dan-O at DanoSongs.com

Music by Kevin MacLeod (incompetech.com) licensed under Creative Commons: By Attribution 3.0 – http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/

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