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#16 – Lições sobre o tempo para quem tem tempo

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10 min de leitura

Tempo é bom apenas para quem sabe ter.

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Referências

Livros, Artigos, Monografias

Me. Adriana Gurgel – A Coexistência entre passado e presente na duração de Henri Bergson: https://revistas.pucsp.br/index.php/reveleteo/article/view/10086

Alberto Nídio – O tempo das crianças e as crianças deste tempo: http://www.lasics.uminho.pt/ojs/index.php/cecs_ebooks/article/view/1561

Vídeos (playlist)

Transcrição

10 min de leitura

O tempo é curto e provavelmente muito mais precioso para você do que para mim, é por isso que nesse episódio eu quero deixar que a minha criança interior converse com a sua, sem a ansiedade de ter que voltar à sua vida cheia de responsabilidade de adulto. Dê tempo ao tempo e cubra os relógios de casa. | Acesse o roteiro e os links de referência desse episódio em virguladobrada.com.br/16 | Eu sou o Diego Malva e esse é o Vírgula Dobrada Podcast.

Um filósofo cristão conhecido como Santo Agostinho citou a seguinte frase em um de seus escritos:

O que é o tempo, afinal? Se ninguém me pergunta, eu sei; mas, se me perguntam e eu quero explicar, já não sei. (1964, XI, 14, 17)

Existem muitos filósofos e teóricos que buscaram dar ao ser humano uma resposta conveniente às nossas dúvidas pessoais no que consiste o tempo. Eu tentei falar no episódio anterior sobre espiritualidade e no fim das contas, não pareceu que pude responder sem tratar uma visão pessoal minha, isso ocorre quando tentamos explicar algo que faz parte do fluxo natural da existência humana. O tempo também faz parte disso, então nem mesmo quando nós seres humanos analisamos os aspectos externos do que a natureza fornece para nós, é possível agradar àquele que busca saber mais sobre o assunto. Cada um pode gerar sua própria resposta para qualquer que seja a pergunta e o tempo se encaixa dentro dessa grande interrogação que é a vida.
Eu amo a forma como somos seres infinitamente diferentes uns dos outros e o quanto que a gente precisa aprender a amar essas diferenças, mas só se tivermos vontade de conseguir viver em sociedade e em paz com nós mesmos. O sofrimento e a solidão fazem parte do caminho em que trilhamos desde a nossa infância, e grande parte do que se torna preocupação para a gente na verdade são males que escolhemos deixar que permanecessem conosco desde pequenos. É por isso que é difícil de falar do tempo sem ter que refletir e às vezes enfrentar os nossos mais profundos medos.
Para tentar explicar o tempo uma maneira um pouco mais simples, só que não menos profunda vou usar o filósofo Henri Bergson, ele teoriza o mundo em sua totalidade de duas maneiras; cientificamente e filosoficamente. Cientificamente vemos as coisas do lado de fora, como expectadores; e filosoficamente nos inserimos na experiência, como atuantes, atores e autores da nossa própria maneira de ver o mundo.
Com isso pode-se dizer que o tempo para a ciência seria as horas, minutos, segundos… E para filosofia, seria o fluxo, o processo, a experiência na sua essência.
Através dos estudos destas duas visões sobre o mundo, eu pude entender que também é possível considerar que há outros pontos de vista para se explorar. Que há interpretações diferentes da visão cristã para esse assunto, essa que passa o entendimento de que nascemos da eternidade e o nosso destino é a eternidade. Conviver com esse olhar talvez tenha sido consolador para a sociedade por muito tempo, mas para algumas pessoas, como o Bergson e eu essa explicação não tenha sido de grande contento. O mundo, de acordo com o que acontece na nossa vida, nos mostra que somos finitos e estamos de passagem por aqui, isso é angustiante para algumas pessoas, mas tomar consciência disso o quanto antes pode fazer com que deixemos de nos preocupar tanto com o futuro e passamos a viver mais presentes na vida que construímos desde o nascimento, mas uma coisa podemos considerar, o tempo é diferente pra cada um.

Que lembranças permanecem em você desde sua infância? A maioria delas são boas ou ruins?
De acordo com Bergson, tudo o que já vivemos em nossa vida fica conosco como memória. A memória, apesar de ser automaticamente acessível para a gente, acaba por nos deixar acessar apenas o que é minimamente importante pra o que se quer lembrar.
Os bons momentos, traumas, nossa própria ética e moral interna, em conjunto com as ações corporais que estão embutidas nessas lembranças, são guardados em lugares mais acessíveis e próximos do que outras memórias menos relevantes, para que possamos tomar decisões que sejam de acordo com a lógica mais confortável à nossa visão de mundo, do que outras que nunca tivemos qualquer experiência na vida.
Não nascemos conhecendo o valor que achamos que o tempo tem, essa imagem que construímos dele é nos colocada com o passar do tempo. Isso já foi mais que comprovado em estudos com crianças sobre a percepção delas de tempo, enquanto a gente está formalizado em ter que seguir rotinas e passamos a ter responsabilidades com o mundo ao nosso redor, a criança ainda não tem qualquer preocupação com essas coisas. O mais importante para ela é descobrir e explorar tudo o que existe ao seu alcance no tempo que para ela pode até parecer infinito.
Sabendo da crueldade do mundo, a gente tenta de maneira extremamente falha proteger as crianças disso e pior, escolhemos passar a nossa visão sobre tempo e da própria realidade à ela. Todos temos um tempo diferente, – e isso não se limita só aos adultos. Temos a opção de aproveitar melhor aquilo que nos é oferecido pelo mundo, mas o medo de não aproveitar tudo de forma ansiosa do mesmo jeito que a sociedade atual já faz é maior, do que a de usar sua própria percepção de tempo para digerir melhor as experiências, coisa que é extremamente natural à criança.

É bem claro para você, provavelmente, que a sociedade moderna se tornou extremamente ansiosa mesmo e acho que essa ansiedade só tende a aumentar e se disseminar entre as pessoas. Se tornou cômodo estar preocupado com o que pensamos e o que os outros pensam de nós, as maiores redes de comunicação dos quais mantemos contato à distância; ao invés de valorizar a diferença e a individualidade, apenas une aqueles que compartilham características muito específicas conosco. Temos uma ilusão de que os outros nos compreendem e passamos a nos preocupar só com as partes que valorizam em nós, no fim essas relações não nos preenchem, nem deixa que amemos a diferença camuflada, por sermos direcionados a considerá-las como uma fraqueza.
O medo recorrente do passado e desvalorização do que vivemos antes de sermos praticamente virtuais uns aos outros, deixa no ar uma poeira que cria essa máscara que esconde aquilo que nos é essência. Não tem nada de errado com o que você construiu, com seu passado, suas fraquezas ou as dores que permanecem com você até hoje.
Você já reparou na quantidade de gente ao seu redor que parece extremamente bem para você, mas que sofre em silêncio por mil problemas que vez ou outra vem pra superfície? Quanto antes a gente enfrentar nossos medos, menos deixaremos que o nosso “eu” futuro sofra pelas nossas negligências. Somos finitos e os nossos iguais também, machucamos uns aos outros e podemos sim curar esse desamor pessoal e social que está nos engolindo. É tempo de deixarmos de dar atenção somente àquilo que superficialmente parece perfeito, como o que nos é bombardeado nas grandes mídias, as nossas imperfeições é o que mostra o que somos. Voltemos verdadeiramente a atenção às pessoas que possuem sonhos, os loucos, os bandidos, os pobres, os soterrados, os abandonados, os agredidos, os artistas, as supostas minorias e todos aqueles e aquelas que agem expondo suas dores para que outras pessoas também possam expor.
Estar vivo hoje e aproveitar para não deixar seus problemas para amanhã é o maior exercício de empatia que você pode fazer. Não continue se enganando, chorar pelas pessoas é muito mais fácil do que saber que vai chorar por ter que enfrentar um problema, você não está chorando por empatia aos problemas das pessoas, mas por ser pego de surpresa pela vida e não estar preparado para aquilo que ela está te jogando nos ombros.
Enfrentar os problemas mesmo sabendo que ele vai te machucar daqui a pouco – só para não deixar que o seu “eu” de amanhã permaneça mal, é o primeiro passo para tirar esse peso todo que você mesmo andou construindo em cima de si. Não existe o melhor momento para resolver seus problemas, resolva agora ou continue se sabotando depois.
O presente é o equilíbrio do passado e futuro
Ninguém nos ensina a ser adulto, e os adultos de hoje acham que seus sonhos de criança não tinham sentido nenhum. Considere toda a sua história, encontre a lógica para tudo de bom e de ruim que foi guardado na sua memória, talvez não exista o destino, mas acredite… nada do que você faz hoje é por acaso; É tudo reflexo do que você fez ou deixou de fazer mesmo antes de saber falar direito.
Para se viver bem o presente, é preciso que tratemos o nosso “eu” com o mesmo carinho que todas as pessoas que você já amou na sua vida. Talvez seja hora de descartar que vai haver um dia que tudo vai ser perfeito, mesmo que alcancemos a paz pessoal, ainda convivemos com outras pessoas que não tem a menor ideia do que seja isso, se não estivermos abertos a estar em harmonia com essas pessoas também, é provável que nada disso terá sentido para você e todos continuemos ainda tendo que enfrentar milhões de outros problemas. Respeite-se, o presente é o equilíbrio do passado e futuro.

É importante frisar o que eu disse há um tempo atrás, todos temos nosso tempo, do jeito que as crianças vêem o mundo ainda se pode retirar um bom aprendizado, olhemos para tudo com o olhar de uma criança, vamos apreciar aquilo que para muitos é velho e nos direcionar para ver o novo naquilo que parece estabelecido. Não é porque podemos aprender sobre tudo hoje, na era da informação, que somos especialistas em tudo. Eu não sou especialista e nem sei por quanto tempo que a mensagem que eu quero passar aqui ainda pode servir para você, mas nunca é tarde para mudar a sua vida, sua opinião e a ansiedade que só quer consumir o que, na verdade, a gente tem que apreciar.

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Créditos das músicas usadas neste programa

Music by Dan-O at DanoSongs.com

Music by Kevin MacLeod (incompetech.com) licensed under Creative Commons: By Attribution 3.0 – http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/

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