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#15 – Consumir não é de Deus

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13 min de leitura

Nesse episódio conversamos sobre consumo, minimalismo, religião e a necessidade humana de conseguirmos dialogar sobre isso.

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Transcrição

13 min de leitura

Em um momento em que as religiões e a sociedade parece que estão de mau humor uma com outra, eu resolvi tocar um pouco na ferida de ambos os lados para encontrar um lugar onde esses dois conseguem conversar. Aqui eu vou falar onde que a sociedade do consumo ainda erra uns com os outros e qual o papel da espiritualidade a esse ser humano tão frágil de suas convicções sobre o desconhecido. Você pode encontrar a transcrição e links de referência desse episódio em virguladobrada.com.br/15. Eu sou Diego Malva e esse é o Vírgula Dobrada Podcast.

INTRODUÇÃO

Defendo bastante a individualidade, principalmente quando se trata de mostrar para as pessoas que reconhecer suas experiências é muito importante para se tomar de volta as rédeas da vida, essa que é distorcida a todo momento nas relações com as pessoas, é impossível você chegar ou ser quem é hoje sem precisar ou depender de alguém que tenha feito algo para você, mesmo que indiretamente sempre uma pessoa está envolvida em tudo o que hoje é essencial na sua vida.

Cama, cadeira, roupa, energia, casa, internet, comida… Você não pensou, plantou, projetou, produziu, colheu, construiu ou transportou a maioria dessas coisas e ainda tem o poder de consumi-las, mas alguém fez isso para você antes. Quase tudo o que você olhar agora que está ao alcance de suas mãos ou olhos você sabe que foi pensado, plantado, projetado, gerado, colhido, construído, transportado e finalizado por um ser humano.

Normalmente estamos direcionados a consumir coisas que outros seres humanos produziram para facilitar ainda mais o consumo de outras coisas, a maioria das pessoas se contenta com o consumo e tem algumas que nem sabem como que é viver sem ter certas coisas. O consumo não é algo que se entende facilmente, quanto mais você tenta se livrar dele mais outras milhões de coisas aparecem para te assombrar. O que nos resta é aceitar que ele existe, mas nunca deixar de perceber a presença dele em nossa vida, nós aprendemos muito rápido a se habituar com o consumo, tanto que chegamos ao ponto de parar de consumir somente as coisas, e passamos a consumir pessoas da mesma forma que esses objetos. Afinal, uma pessoa sofre por processos relativamente parecidos, não? Às vezes pensada, plantada, projetada, gerada, acolhida, construída, para no fim alguém usar, mas a gente não precisa deixar que essa visão de homem-objeto saia do pensamento do outro e venha parar no nosso.

Foi incrível para mim pensar de que para conversar sobre espiritualidade com você eu tive que primeiramente entender sobre como que eu enxergo o consumo. Isso é importante para que a gente consiga mergulhar no nosso tema e poder enxergar a forma como lidamos com aquilo que nem sempre temos certeza se foi feito por seres como nós, criações de valor inestimável, que já estavam lá mesmo antes de qualquer pessoa sequer ter passado pelo processo inicial de existência disso.

Então, vamos conversar sobre que paramos de nos preocupar. O essencial.

Existe no seu redor algo que para você é impossível de viver sem? Por bastante tempo eu achei que precisava de muita coisa, mas percebi que a maior parte daquilo que eu possuía não tinha mais tanto valor para mim. Sabe aquela sensação de que você quer muito uma coisa e quando finalmente tem ela, você deixa ela de lado por já ter usado o suficiente ou a percepção de que ter aquilo na sua vida já não é mais tão prazeroso quanto quando lembrava que era impossível de ter? Se você consegue uma coisa que sempre quis na vida e deixa de ver necessidade nela depois de possuir, é bem provável que esteja vivendo de acordo com o que a sociedade quer que você viva: consumindo coisas.

E é bom saber que existe coisa chamada Consumo Conspícuo, que é uma necessidade de mostrar as pessoas que possui alguma coisa de valor apenas para manter um status que todo mundo acha que tem. Quando a gente olha um para o outro e acha que aquilo que os outros tem é o que você precisa para a sua vida. Pessoas que sofrem disso normalmente perdem a noção de quem é e o que precisa de verdade. Em paralelo a isso existe também o Consumo Compulsivo, que nem sempre está ligado à status, mas que é bem pior que isso, pois ele não precisa necessariamente que você seja rico ou pobre. De uma forma ou de outra você vai comprar algo, além de deixar de lado o que realmente importa para sua vida, você compra coisas apenas para preencher um sentimento de tristeza e frustração.

Em outubro de 2018 eu comecei a olhar para aquilo que eu tinha com muita estranheza, sentia que meu quarto estava muito bagunçado mesmo que eu tivesse arrumado no dia anterior, mas não era bagunça, era excesso de coisas que eu não precisava. Livros, apostilas, cadernos, roupas, presentes e acessórios que não sabia nem quando que eu tinha usado pela última vez. Coincidentemente navegando na internet eu descobri o minimalismo e meu jeito de olhar para as coisas mudou bastante. Vou deixar alguns vídeos na descrição desse episódio para caso você queira se aprofundar no assunto, mas em resumo o minimalismo me ajudou a enxergar aquilo que era essencial para mim. Como Matt D’Avella diz em um dos seus vídeos sobre o assunto, “o minimalismo começa nas coisas materiais, mas não termina nisso.”

Há uma visão extremamente distorcida do minimalismo que é o de achar que a partir do momento que se deseja iniciar você só vai viver com o mínimo, mas não é nada disso, está mais para viver com o que você vai usar. É dar significado a tudo aquilo que possui e aí questionar se o que você possui realmente precisa permanecer em sua vida. É gastar seu tempo com o que importa e tem sentido para você e não se sentir culpado depois. Perceber falhas, méritos e dar valor a ambas as coisas. Isso demanda muito tempo, esforço e muito emocional também.

Depois de entender como que eu poderia deixar de lado ou me livrar de objetos, pessoas e hábitos que me causavam impacto negativo, passei a experimentar coisas novas e aprimorar o que permaneceu. O mais interessante de olhar para o que permanece por necessidade sua, é justamente a maneira com que começamos a apreciar ainda mais cada uma delas. Não demorou muito para eu passar a ter que revisitar pensamentos, ideias e gostos antigos e me questionar do porquê de ter deixado de fazer se um dia eu já gostei muito.

Um desses meus questionamentos foi sobre a minha espiritualidade. Se você é como eu, já deve ter ligado a tela no aplicativo ou voltado para a aba do navegador do episódio apenas para saber em que momento que eu vou começar com o papo sobre a bíblia e toda aquela doutrina comum de igreja, mas não se preocupe. A próxima música aqui da playlist do episódio não é um hino gospel, eu não estou aqui para defender ou culpar igrejas, doutrinas, dogmas, crenças ou qualquer outra manifestação religiosa, na verdade a primeira coisa que eu me questionei quando pensei em fazer esse episódio era se eu ia citar alguma religião que eu já participei, e como não foram poucas, talvez seja uma história que vale a pena contar.

Fiz o Ensino Fundamental Um em uma escola que tinha vínculo com a igreja católica e uma ficava ao lado da outra. Não lembro de a gente ter que rezar antes da aula começar ou quando acabava, mas eu lembro que quando o padre aparecia todos os alunos queriam ver, por serem momentos muito raros. Querendo ou não é o mais próximo de um super herói para uma criança, afinal não é todo dia que a gente vê um adulto sempre vestindo a mesma roupa.

Até minha adolescência eu tentei seguir tudo o que a igreja pedia, mas mesmo assim eu nunca consegui terminar nem a catequese. Na adolescência eu tive a oportunidade de experimentar participar da Assembléia de Deus, eu particularmente achei coisa de outro mundo na primeira vez, para quem estava acostumado a receber um roteiro de tudo o que vão falar lá no púlpito, era estranho para mim perceber que tinha mulheres e crianças cantando, pregando e tocando instrumentos. Na época a igreja católica ainda era muito formalizada e fechada em seus próprios preceitos, com o tempo também percebi que foi surgindo na igreja católica movimentos parecidos em que as pessoas tinham mais liberdade de expressão, e isso foi realmente muito interessante de se ver.

Tive passagens por outras igrejas como a dos Testemunhas de Jeová e a Igreja Universal, foram experiências relativamente parecidas, só que uma exigia mais de mim do que outra, no fim eu escolhi terminar minha adolescência toda na Assembléia de Deus como músico e, logo parei de frequentar. O que me fez parar de frequentar a igreja eu não lembro de ser algo muito específico, mas eu tenho certeza do que me fazia frequentar todos os dias: O medo.

Eu era extremamente temeroso que algo acontecesse comigo quando eu falhasse com as pessoas, então eu constantemente precisava rezar para conseguir dormir por medo de morrer e parar no inferno. Eu tinha vergonha de errar e medo de ser punido. Bem parecido com o que as pessoas já faziam isso comigo no mundo real, vale lembrar que eu costumava apanhar quando eu assumia que errava para os meus familiares, desde a infância até a adolescência. Então era muito melhor para mim mentir e omitir tudo o que eu fazia de errado e depois pedir perdão e força pra Deus.

Depois de um tempo, eu descobri que isso não era somente comigo, vez ou outra eu via algo errado acontecer com alguém da igreja e todo mundo fingir que não aconteceu por terem se resolvido com a ideia deles de Deus. Tava tudo errado, todo mundo parece que fazia o mesmo que eu e eu odiava ter que fazer isso. Mentir e omitir os meus erros era para eu não apanhar, será que esse monte de gente também apanha? Eu não queria estar mais afogados nessas mentiras. Foi aí que eu comecei a me tornar muito impaciente e me afastei de todo mundo que eu sabia que me ajudava a me tornar uma pessoa pior. Das primeiras verdades que eu decidi falar, foi contar para minha mãe que eu era abusado por um parente que, por ironia, era religioso.

Vivi recluso em casa por um tempo para me afastar dessas pessoas que me faziam mal, depois descobri que essa reclusão era a depressão e eu aprendi sozinho maneiras de me ajudar, pois no fim das contas, Deus não está na igreja, não está nas religiões, não está nas pessoas, está no carinho que sentimos por nós mesmos. Eu não tenho nada a ver com essa imagem ruim que fica Dele nas pessoas, a que importa é aquilo que permaneceu de bom em mim.

Questionar o que eu sentia em relação aos meus erros me faziam ter que me colocar no lugar de espectador da minha própria história. Se eu me culpava por causa do abuso, com o tempo eu decidi viver minha vida entendendo que eu não tinha nada a ver com aquilo, quem precisa sentir o peso de todo esse erro é todo o resto que contribui para que esse pensamento não saia de mim.

Consumimos compulsivamente o que o homem cria e nunca compreendemos que ao mesmo tempo somos consumidos por ele. Lutar contra o consumo não é falar de dinheiro, mas do alerta pessoal de que nem tudo precisa ser consumido. E o que for, que seja através de uma escolha consciente e sincera.

Então, que religião eu sigo hoje? Nenhuma em específico. Eu me atraio pelos preceitos do budismo, e a forma com que existe uma busca humana muito mais antiga que o próprio cristianismo de viver em equilíbrio com a natureza e o próprio ser, nega os excessos e parte para o princípio de que temos de ter respeito pelo conhecimento e toda a necessidade de compartilhá-lo com os iguais.

Organicamente eu acho que ainda é necessário termos nossos momentos de autodescoberta nesse mundo. Me parece que a completude do homem só é alcançada quando aceitamos que há um desconhecido dentro de nós e este nem sempre pode ser explicado. Se pode, aceitamos a verdade que conversa mais com a essência que escolhemos a nós mesmos.

Eu experimentei diversas religiões cristãs e aceito os problemas e boas experiências que isso me trouxe, mas o caminho que escolhi é o que todas têm em comum: a necessidade humana de espiritualidade que está pela paz nos significados que dou àquilo que eu já possuo em minha vida. Eu não consigo aceitar que não podemos mudar o curso de más escolhas, acredito no melhor que há nas pessoas. O pior dele a gente não precisa jogar fora, deixa que a essência disso sirva como uma legitimidade a suas experiências.

De verdade, muito obrigado por ter ouvido até aqui. É importante que você compartilhe esse episódio nas redes sociais para que a mensagem chegue em mais gente, deixe sua opinião nas redes sociais do Vírgula Dobrada. No facebook.com/virguladobrada, instagram @virguladobrada, você pode mandar um e-mail com sua sugestão, crítica ou elogio para contato@virguladobrada.com.br.

Esse episódio não chegaria em seu dispositivo se não fosse o apoio financeiro de Aline Malcher, Eurik Hander, Paula Balieiro, Pedro da Cunha, Pedro Henrique, Ramilly Rocha e Tatiane Lopes. Caso se sinta à vontade você pode fazer o mesmo acessando virguladobrada.com.br/apoie.

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Créditos das músicas usadas neste programa

Music by Dan-O at DanoSongs.com

Music by Kevin MacLeod (incompetech.com) licensed under Creative Commons: By Attribution 3.0 – http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/

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