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#06 – Homem Não Sabe Ser Coadjuvante

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9 min de leitura

Socialmente o homem calado já tá errado, mas neste episódio Diego Malva em seu lugar tenta falar um pouco sobre o problema do patriarcado.

Diego Malva discorre sobre sua vida, associando experiências e períodos da infância que o fizeram perceber o quanto e é errado buscar o homem dentro de nós quando nem mesmo se tem um bom homem como espelho.

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Transcrição

9 min de leitura

A maior parte do tempo eu era visto como homem pelas pessoas da minha família, mas quando eu comecei a pensar nas atitudes dos homens que estavam ao meu redor, eu percebi que não me identificava com nada daquilo. Foi então que eu passei a ser eu mesmo e fui barrado pela minha família e pelos outros homens que conhecia era sempre a mesma dúvida. Eu era homem ou gay. Afinal, isso realmente importa? No fim das contas, o que é ser homem?

Ser hétero cisgênero e não me identificar com minhas atitudes como homem na sociedade me faz enxergar o quanto eu já nasci todo errado, ou será que o mundo já tava errado quando nasci?

Mesmo tendo sido criado com pai ausente, o machismo foi impregnado na minha família que é em sua grande maioria formada por mulheres. “Engole esse choro” foi uma das coisas que eu mais ouvi em toda a minha infãncia e o que não me ensinaram foi em dizer quando que eu deveria parar de engolir esse mesmo choro. Só que acontece que além de engolir o choro, fui engolindo minhas palavras e me tornei uma criança que não falou muito a infância inteira.

Não falei para a minha mãe que não queria mudar de casa, nem mesmo de escola, ou que eu precisava de ajuda com minha depressão e também que tinha problemas na escola porque não conseguia falar com as pessoas.

Quando minha mãe me fez escolher se eu queria ou não morar com meu tio, eu finalmente fiz algo que queria e aceitei. Pela primeira vez eu tive um pai, mas não demorou muito para ele me decepcionar também.

Ele tinha dinheiro, minha mãe precisava de dinheiro. Ele me aliciava e tentou me estuprar… Por dinheiro, e eu fiquei calado em relação à isso, pois a gente precisava de dinheiro.

Foi nesse momento que eu parei de acreditar na maioria das coisas que os homens diziam, filtrava aquilo que eles falavam e descobri que o que falam não tinha nada a ver com aquilo que as pessoas dizem deles, mas do que queriam que falassem sobre eles. Cheguei a conclusão que não dá pra conhecer homem nenhum através das palavras, e quanto eu chorei por causa disso, porquê nem eu mesmo me conhecia em minhas palavras.

Quando entrei para o teatro, passei a ver o homem como um personagem que não aprende a ser coadjuvante da própria história. O importante é parecer alguma coisa, mostrar o que é e não ter medo disso, sempre me questionava muito sobre quem eu era e quem eu gostaria de ser, e nunca encontrei em nenhum homem que conhecia um ideal de pessoa que gostaria de ser.

Foi então resolvi deixar de lado a mania de buscar ideais masculinos e passei a concordar e cogitar mais o posicionamento das mulheres em odiar aquilo que os homens fazem com elas. A primeira coisa que mudou completamente foi a relação com minha mãe. A adolescência arrastada até praticamente meus 18 anos, tirou da minha cabeça que ela era a minha inimiga nessa história toda, que eu não deveria mentir ou esconder coisa alguma dela. Descobrir que isso não fazia sentido algum só deu mais abertura no meu posicionamento cada vez menos… machista? Será?

Ser “o homem da casa” se tornou o que eu mais desconhecia nas palavras dela. Que homem eu teria que ser em casa? Que homem que eu era no fim das contas? Foi que vi que nenhum homem que passou pela nossa casa tinha ficado para me ensinar o que é ser esse tal “homem da casa”. Assimilei que na nossa casa eu deveria construir esse homem através das minhas perspectivas de mundo, colocando como espelho o de uma mulher da casa, a única pessoa que eu respeito e confio: a minha mãe.

Muita coisa mudou a partir daí, principalmente sobre como normalmente eu costumava enxergar as mulheres.

Eu me lembro que todas as relações afetivas que tive durante minha vida foram em sua maioria abusivas. Só namorei e fiquei com mulheres que tomavam iniciativas, hoje eu penso que pode ter sido por causa da minha audácia de esconder as coisas da minha mãe. Porque eu nunca assumia o que gostava ou não nesses relacionamentos. Escondi aquilo que não gostava e acumulava essas inseguranças em mim mesmo, a consequência disso foi confiar em outras mulheres aquilo que eu não confiava nem mesmo na pessoa em que eu estava junto. Falar sobre meus problemas com outra pessoa as tornava automaticamente cúmplices do meu relacionamento abusivo. Me levando à traição, já que eu sentia atração pelas mulheres que me ajudavam.

A verdade é que em nossa sociedade, os homens não conversam sobre seus sentimentos e problemas pessoais, a não ser que esteja a fim de conquistar alguém. Logo, amigos não podem saber de suas fraquezas para não ser zoado, e suas companheiras por não os verem como fracos e inseguros. Esse pensamento patriarcal desenfreado reflete em uma tensão guardada que se eles não matam uns aos outros, usam essa mesma tensão para abusar, trair ou matar as mulheres.

“Homens estão morrendo porque não conseguem falar” diz uma matéria de Christos Reid no site Papo de Homem.

E aí eu me lembro das várias vezes que já estive no papel de um suicida. Você sempre tem a opção de procurar ajuda de um profissional para conversar quando você acha que nenhum dos seus amigos vai te dar atenção nesse problema que parece ser extremamente egoísta: o de conhecer a sí mesmo. Mas a gente ainda prefere sofrer pelas mesmas coisas, com o tal mimimi da infantilidade retarda que é instigada pela sociedade, de que homem se não for um merda com as pessoas, não é homem.

A gente descobre muito mais sobre o que somos quando conversamos com outras pessoas, mas é conversar no sentido de abrir-se e esperar que a outra pessoa esteja aberta a trocar com você opiniões da sua perspectiva. Se você conversa com outra pessoa esperando que ela te apoie no seu discurso e não te dê um contra-ponto ou opinião sobre o assunto, a conversa na verdade se torna uma imposição de ideal, assim, vai rolar aquela tensão novamente.

Depois de tudo isso você já deve ter percebido que todos precisamos de muita terapia, né? Mas eu lembro pra você que terapia não é um bicho de sete cabeças e nem é coisa de gente doida, mas sim de gente que tem vontade de aceitar novas perspectivas e para isso primeiramente você precisa descobrir quem na verdade é você em seus diversos meios sociais.

E se você for como eu e não tiver dinheiro para esse tipo de coisa, eu fui por um caminho mais lento e difícil, mas ainda assim possível: Meditação e auto-hipnose, mas eu falo melhor sobre isso em outro episódio.

O importante mesmo é saber que construir a problemática da masculinidade tóxica, nunca será de uma hora pra outra, a maioria das vezes você vai se ver falando mal de alguma atitude de um homem, fazendo a mesma coisa só que em outro contexto sem perceber. Depois de entender o motivo do meu problema de falar com as pessoas, eu tive que aprender também a me calar e engolir o próprio machismo em situações cada vez recorrentes.

Nunca vamos conseguir superar o machismo, nem mesmo doutrinar em uma única conversa o tal do discurso desconstruído. O ideal mesmo é compreender e saber quem realmente precisa ser protegido de tudo isso. A mudança nunca é se consegue ser estimulada sem força interna da necessidade desta mudança. A maioria dos homens prefere continuar machista por não buscar entender quem eles são.

A pergunta a ser respondida é se você é feliz assim ou se você faz outras pessoas serem felizes agindo da maneira que age.

Sempre vai ter horas que alguém vai ter que te mandar calar a boca e mandar a real na sua cara para você perceber que estava errado. Nestes momentos, qual vai ser a sua reação? Manter seu discurso e agir por impulso ou cogitar que você está mesmo sendo um babaca?

O mundo vai continuar apoiando indiretamente os nossos suicídios e os feminicídios pela ignorância do substantivo feminino mais bonito que eu conheço: a Empatia.

E então, o que é ser homem para você?

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Toda descrição, links e a transcrição completa desse episódio pode ser encontrado em virguladobrada.com.br/08

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Créditos das músicas usadas neste programa

Music by Dan-O at DanoSongs.com

Music by Kevin MacLeod (incompetech.com) licensed under Creative Commons: By Attribution 3.0 – http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/

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